A ANJL publicou estudo técnico com monitoramento próprio da oferta de apostas sem autorização no Brasil que mede, pela primeira vez, a camada de pagamento do mercado ilegal: 24 gateways, 93 CNPJs recebedores e 23 instituições de pagamento identificados em 3.183 evidências documentadas — dado que muda a pergunta que times de pagamentos e compliance financeiro de operadores autorizados precisam fazer aos seus intermediadores.
O documento é a versão 1.2 do estudo, datada de Brasília, 18/09/2026, e foi publicado quando o governo ainda avaliava editar medida provisória restringindo jogos online. Dentro do estudo, a proibição do cassino online aparece como simulação, não como norma — mas essa condição deixou de valer no dia seguinte à publicação desta matéria: em 25/09/2026 foi editada a MP 1.394/2026, que proíbe apostas de quota fixa sobre eventos reais e jogos on-line em todo o território nacional. A proibição é norma vigente, e os cenários simulados abaixo permanecem no texto apenas como registro histórico. Veja a atualização ao fim da matéria. (Apuração do iGBRASIL: há divergência de numeração entre fontes — material do Senado cita MPV 1.393/2026 para o pacote editado na mesma data.)
O gateway dura mais que o domínio
O achado central é de persistência. Os 3.183 registros vêm de 21 relatórios produzidos entre maio e setembro de 2026. Nesse intervalo, 15 gateways e 45 CNPJs identificados em maio e junho seguiam recebendo em setembro, com medianas de 124 e 112 dias de atividade. Por esses intermediadores passam 94,8% e 82,6% das casas com registro de pagamento no monitoramento.
A concentração é o segundo ponto: um único gateway atende 843 sites, o maior CNPJ recebedor aparece em 274 casas e 11 gateways somam 50 ou mais sites cada. "A camada de pagamento é mais estável e mais concentrada", registra o estudo. O contraste com o domínio é direto — endereços bloqueados são substituídos em dias, enquanto o trilho financeiro permanece por meses.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Gateways identificados | 24 |
| CNPJs recebedores | 93 |
| Instituições de pagamento | 23 |
| Maior gateway | 843 sites atendidos |
| Maior CNPJ recebedor | 274 sites |
| Gateways com 50+ sites | 11 |
| Persistência (mediana) | 124 dias (gateways) e 112 dias (CNPJs) |
| Evidências documentadas | 3.183, em 21 relatórios |
Escala da oferta sem autorização
O estudo atribui à SPA/MF o número de 66.482 domínios sem autorização bloqueados entre janeiro de 2025 e setembro de 2026 — mais de 355 bloqueios por domínio autorizado, contra 82 empresas, 188 marcas e 187 domínios .bet.br na lista da SPA extraída em 18/09/2026 — foto anterior à MP 1.394/2026, que extinguiu as autorizações vigentes. O iGBRASIL já registrou que esse balanço atribuído à SPA circula sem link para documento oficial publicado; a ressalva permanece.
A ANJL monitora 9.986 domínios. Entre 11 e 18 de setembro, 6.409 respondiam normalmente, 1.644 redirecionavam e 1.205 não respondiam. A reposição é contínua: 13,7 novos domínios por dia entre junho e agosto de 2026, segundo consulta WHOIS sobre base de 6.567 endereços, e 8,2/dia na média dos 12 meses até agosto. Em 1.682 de 4.477 endereços fora de operação (37,6%), a mesma marca aparecia ativa em outro endereço.
Nosso estudo mostrou que dos sites que ficam fora do âmbito nacional, 55,8% usam rede de distribuição que oculta a hospedagem de origem e 98,3% dos domínios estão fora da terminação 'br'.
Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL
O que a simulação de proibição diz
Sobre um GGR autorizado de R$ 36,96 bilhões em 2025 (SPA/MF) e uma participação de 73,9% do cassino online no volume — métrica que o próprio estudo aplica com ressalva —, a ANJL simula três taxas de migração ao ilegal em caso de proibição da vertical. São premissas declaradas, não projeções validadas por terceiro, e partem de uma participação ilegal atual estimada em cerca de 41% das apostas. Premissa superada: o estudo modelou a proibição apenas do cassino online, com o restante do mercado seguindo autorizado. A MP 1.394/2026 alcançou também as apostas sobre eventos reais de temática esportiva e extinguiu as concessões — logo, a base migrável é o GGR inteiro, e não os 73,9% do cassino. Os números abaixo subestimam o cenário real por construção.
| Taxa de migração | Volume ao mercado ilegal | Participação ilegal |
|---|---|---|
| 30% | R$ 8,2 bi/ano | 78% |
| 50% | R$ 13,7 bi/ano | 80% |
| 70% | R$ 19,1 bi/ano | 82% |
No lado fiscal, o estudo parte de estimativa LCA/IBJR de R$ 7,2 a 10,8 bilhões por ano já não recolhidos pela oferta sem autorização e calcula que a proibição do cassino online eliminaria de R$ 3,6 a 7,4 bilhões adicionais, usando a contribuição de 13% sobre o GGR prevista na Lei 14.790/2023 — conta que, com a extinção das autorizações pela MP 1.394/2026, tende ao total arrecadado pelo mercado regulado. O setor autorizado recolheu R$ 9,95 bilhões em tributos em 2025, mais R$ 2,5 bilhões em outorgas, e R$ 8,75 bilhões de janeiro a julho de 2026.
Leitura obrigatória: a ANJL é parte
O estudo é da entidade que representa operadores autorizados, interessada direta no debate da MP. Gateways, CNPJs e instituições de pagamento estão anonimizados na versão pública, o que impede o operador de cruzar nomes a partir do documento. O que é aproveitável de imediato é o método: em julho de 2026, o Ministério da Fazenda notificou 37 fintechs ligadas a cerca de 160 casas e a mais de 40 mil sites, e a Portaria SPA 2.750 já obriga o bloqueio de pagamentos a bets ilegais.
O que fazer nesta semana
- Mapear todos os PSPs e gateways da cadeia e pedir por escrito confirmação de que não processam para operadores sem autorização da SPA/MF, com cláusula de rescisão imediata.
- Cruzar CNPJs recebedores e instituições de pagamento em uso na operação com as notificações feitas pela Fazenda às 37 fintechs em julho de 2026.
- Manter auditável a evidência de bloqueio de beneficiários de Bolsa Família e BPC e de atendimento a pedidos de autoexclusão.
- Checklist superada pela MP 1.394/2026: com a extinção das autorizações, o roteiro desta semana é de encerramento ordenado — baixa de contas transacionais, preservação de trilha de auditoria e guarda de evidência de bloqueios e autoexclusões — e não de renovação de contrato por vertical.
O comparativo de proteções é o argumento que o setor leva ao Planalto: 3 milhões de beneficiários de Bolsa Família e BPC bloqueados, mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão e 5 milhões de pessoas impedidas de acessar, conforme dados do mercado autorizado citados no estudo — patamar coerente com o registro de que a autoexclusão passou de 1 milhão de CPFs. Nenhuma dessas travas existe na camada que o estudo mapeou.
A MP tem força de lei e entrou em vigor na edição, em 25/09/2026, com prazos já na semana seguinte — o que reduziu a zero o tempo de preparação para quem não tinha feito a conta de exposição nem organizado a trilha do dinheiro na conta transacional.
Due diligence de PSP
Receba no e-mail as próximas apurações sobre a tramitação da MP 1.394/2026 no Congresso, as obrigações remanescentes de PSPs e o risco de responsabilização do intermediário financeiro. Para receber a análise do que muda para operadores, assine a newsletter do iGBRASIL.
Atualização — 16/10/2026
Um dia depois da publicação desta matéria, em 25 de setembro de 2026, foi editada a MP 1.394/2026, que veta apostas de quota fixa sobre eventos reais, cassinos on-line, novos aportes, publicidade e patrocínios em todo o território nacional. A medida previu a extinção das concessões em 30 dias contados de 25/09 e o bloqueio de sites e aplicativos em 10 dias. Há divergência de numeração entre fontes — material do Senado traz MPV 1.393/2026 para o pacote editado na mesma data, acompanhado de projeto de lei que tipifica crimes de descumprimento.
Linha do tempo fechada
- 25/09/2026 — edição da MP, com vigência imediata.
- 05/10/2026 — limite para apostadores sacarem saldos; o estoque em conta era de R$ 1,7 bilhão, segundo o Ministério da Fazenda.
- 06/10/2026 — sites fora do ar em definitivo.
- 09 a 14/10/2026 — devolução dos saldos pelos bancos.
- 13/10/2026 — fim do prazo de emendas no Congresso.
- 23/11/2026 — fim da vigência inicial dos 120 dias, prorrogável por mais 60.
Emendas: contagens divergentes e o cenário de meio-termo
As contagens públicas divergem. Uma apuração registra 97 emendas protocoladas, cinco retiradas e 92 remanescentes; outra fala em 99 protocoladas, cinco retiradas e 95 em análise. A comissão mista ainda não foi instalada. Parte dos parlamentares defende a reabertura do mercado regulado; outra parte propõe manter as apostas esportivas e proibir apenas os jogos de cassino online — convergência que concentra o debate. O deputado Mauricio Neves (PP-SP) propõe restabelecer as autorizações extintas pela MP, e há emendas voltadas a preservar contratos de patrocínio e as licenças já pagas.
Para o leitor que planeja 2027, as variáveis que decidem o trimestre são três: a instalação da comissão mista, quem assume a relatoria e se o meio-termo (esportivo sim, cassino não) prevalece. É o que define se haverá mercado autorizado no ano que vem.
O que o estudo acertou
A tese de que o trilho financeiro dura mais que o domínio passou por teste de campo. Monitoramento aponta que o mercado ilegal de apostas cresceu sete vezes após a proibição, e a própria ANJL identificou mais de 200 novos sites ilegais apenas durante o feriado do Dia das Crianças. Antes disso, MJSP e Ministério da Fazenda já haviam solicitado a derrubada de 5.209 sites e, em seguida, de mais 506. O patamar de bloqueios citado no estudo ganhou registro público: a SPA informou ter bloqueado mais de 66 mil domínios e aplicado R$ 18 milhões em multas na fiscalização de apostas online. A capacidade atual de detecção se apoia no acordo firmado entre SPA, Anatel e ANJL para aprimorar identificação e bloqueio de sites ilegais.
Pagamentos depois da proibição
A camada de pagamento é hoje o ponto crítico da operação. Com o mercado autorizado extinto, restam obrigações de PSPs quanto a encerramento de contas transacionais, devolução de saldos e guarda da trilha de auditoria. A Portaria SPA 2.750 e a portaria de enfrentamento ao mercado ilegal publicada pela SPA seguem aplicáveis, assim como a estratégia de estrangulamento financeiro via bancos e instituições de pagamento. O risco que o texto original só tangenciava virou exposição concreta: impostos devidos por bets ilegais podem ser cobrados de bancos que ignorarem alerta da Fazenda.
A posição pública da ANJL também mudou de tom — do alerta preventivo ao balanço de dano. O presidente da entidade afirmou que o "governo pôs abaixo uma indústria inteira", e a associação rebate o governo sustentando que as apostas migraram para o mercado clandestino. Permanece a ressalva de interesse: a ANJL é parte no debate, agora como parte vencida no desenlace, e os gateways, CNPJs e instituições de pagamento seguem anonimizados na versão pública do estudo.